"Não importa o que fizeram com você, o mais importante é o que você vai fazer com o que fizeram com você" Sartre

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domingo, 11 de setembro de 2011

ESCOLHA PROFISSIONAL: Entre os sonhos, os ideais e o capitalismo

Artigo publicado na Revista de Iniciação Científica da UNESC - Volume 7 - Número 1 - 2009.


ISMAEL FERREIRA2
REGINA TEIXEIRA3
RESUMO
 
O artigo faz uma análise sócio-histórica da escolha profissional, confrontando sonho profissional, habilidades e a realidade do mercado capitalista global e regional, buscando, conjuntamente, viabilizar caminhos possíveis para os jovens de uma escola pública desenvolverem seus projetos profissionais. A prática resultante no artigo aqui escrito aconteceu na Escola Estadual Marcos Rovaris, em Criciúma, SC

PALAVRA-CHAVES
Capitalismo. Fordismo. Just-in-time. Escolha Profissional.

ABSTRACT
            The article make a socio-historical analysis to the profissional choice, confronting profissional dream, abilities and reality of global and regional capitalist market, looking, altogether, find possibles ways to the youngs of a public school develop yours profissionals projects. The pratice resultant in the article here written happened in the school Marcos Rovaris, in Criciúma SC.

KEY-WORDS
Capitalism. Fordism. Just-in-time. Profissional Choice. 

INTRODUÇÃO


As escolhas profissionais realizadas num país subdesenvolvido, não devem ser colocadas acima, ou isentas de uma reflexão sobre as realidades sociais existentes. Pois nenhuma escolha está posta de forma independente das condições sociais, que são, por sua vez, desiguais. O Brasil é um país em que escolhas são restritas a determinadas condições, sobretudo financeiras. A cada dia evidencia-se o distanciamento entre classes dominantes e classes subalternas. Faz-se necessário muito esforço para superação dos obstáculos existentes num mundo que se põe diante de cada jovem brasileiro com suas limitações evidentes e introjetadas nas subjetividades que se constróem nesse sistema, cuja superação da realidade objetiva é necessariamente superação da realidade subjetiva, por isso auto-superação. Nesse contexto, insere-se a proposta de trabalhar com as possíveis escolhas profissionais dos estudantes do terceiro ano do ensino médio, de uma escola pública de Criciúma, SC: Escola Estadual Marcos Rovaris. Visando perceber quais as escolhas profissionais são possíveis de serem feitas, confrontando os sonhos com as condições sociais enfrentadas para realização desses sonhos. Discutindo os caminhos possíveis a serem percorridos, aprendendo a conviver com perseverança diante das realizações e frustrações que fazem parte da luta cotidiana de milhares de jovens que buscam um espaço no mercado de trabalho brasileiro.
A escolha profissional é entendida como sendo um passo importante na vida dos jovens que entram no mercado de trabalho. Significando, muitas vezes, um projeto que se estende para além da escolha de uma profissão, podendo estar relacionado com um projeto de vida. Sabendo da competitividade do mercado; da realidade social brasileira; das precárias condições de educação, com sua finalidade de produzir cidadãos e prepará-los para o mercado de trabalho; do difícil acesso dos jovens a uma qualificação profissionalizante ou superior. Propõem-se, buscar alternativas e discuti-las exaustivamente para construção de um caminho que aproxime os sonhos profissionais de sua realização concreta.
Sabe-se que a escolha profissional não é abstrata, está necessariamente relacionada com um modelo personificado. A idéia de um sujeito que representa determinada profissão, mesmo que essa idéia venha de um universo imaginário, não deve ser ignorada, pois faz parte da construção subjetiva de cada indivíduo (...) não se despreza o que foi trazido [...] considerando a imagem como algo ilusório, fantasioso ou simplesmente distorcido”.4 O imaginário, a idéia do que é cada profissão, do que representa para cada sujeito, os sonhos alimentados e o ideais profissionais, devem ser considerados na escolha profissional.  Uma vez entendido que a escolha de uma profissão não pode estar desvinculada de uma escolha pautada nas diversas experiências que aproximam os jovens de suas escolhas, fazendo com que possam optar por uma determinada profissão, a orientação profissional deve levá-los a ter mais informações sobre as diversas profissões existentes, tendo a finalidade de construir um número significativo de experiências que facilite a escolha. Porém, para além da descoberta de determinadas habilidades, do que cada jovem gosta de fazer, relacionando com uma determinada profissão, dos jogos e testes que apontam para determinadas escolhas, deve-se refletir um “como?” um “caminho”.  Proporcionar vivências que signifiquem para o sujeito as mesmas experiências que ele teria em determinada profissão, com a finalidade de facilitar sua escolha, não é o suficiente. A escolha de uma profissão não é algo abstrato, é sempre pautada em algum tipo de relação com a realidade, quando não, pode-se construir uma ilusão, relacionando-a com determinada profissão.


O EMPIRISMO MATERIALISTA DE ADAM SMITH NA DIVISÃO TÉCNICA DO TRABALHO

No processo histórico da fragmentação do trabalho, o que diferencia as habilidades, segundo Adam Smith, não é a natureza, mas a experiência: “A diferença entre os caracteres mais dissemelhantes, por exemplo, entre um filósofo e um vulgar moço de fretes, parece não derivar tanto da natureza, como dos hábitos, usos e educação” (Smith, 1999). São os hábitos, os usos e educações que nos diferenciam, não uma natureza.
Na divisão do trabalho, Adam Smith considera-o dividido em partes, e cada indivíduo fazendo a sua parte para que se chegue numa produção mais eficiente, partindo do individual para o coletivo. Smith não descarta a necessidade que os indivíduos têm uns dos outros nessa rede de relações que se inicia com a simpatia,[1] mas que é também econômica, por conta da divisão do trabalho que exige a troca do resultado do trabalho de um cidadão com outro. Historicamente, Adam Smith mostra como no sistema capitalista as profissões são distribuídas. Conforme Smith (1999), numa tribo de índios, determinado sujeito faz arcos e flechas com muito mais agilidade e perfeição que outros, assim num processo natural a fabricação de arcos e flechas passa a ser seu ofício, um armeiro. Trocando armas por caça, alimentos, gado, enfim, por objetos que tornam sua sobrevivência possível. Seu próprio interesse leva-o a fabricação de arcos e flechas. Um outro aperfeiçoa-se na construção de coberturas para as cabanas, passa a prestar esse serviço para os vizinhos que lhe retribuem da mesma maneira que o armeiro é retribuído. Da mesma forma um outro torna-se ferreiro, outro torna-se carpinteiro. Assim, conclui Adam Smith: “Os homens de diferentes profissões, quando atingem a maturidade, não são, em muitos casos, tanto a causa como o efeito da divisão do trabalho”.5 Dessa forma, a divisão do trabalho possibilita a diferença entre os sujeitos no sistema capitalista, distribuindo papéis diferentes à serem ocupados. A simpatia passa a levar em consideração a diferenciação de papéis, resultado da divisão do trabalho, a experiência positiva ou negativa com esses papéis, influencia a aceitação ou aversão de pessoas, situações, classes sociais, etc.
Segundo Smith (1999), a escolha de uma profissão está vinculada às afinidades, resultado das experiências, diante da posição que os sujeitos têm na sociedade em que vivem. Porém, a sua compreensão das escolhas profissionais, proveniente dos hábitos, usos e educações, restringe as escolhas, impossibilitando a ascensão de uma classe à outra, fortalecendo a idéia de que o homem é resultado das suas experiências, restritas aos escassos acessos de uma classe, em contraponto ao privilégio de outra, com a falsa idéia de liberdade advinda do liberalismo. Pois, se o que torna os sujeitos diferentes são os usos, hábitos e educações, o proletariado do século XIX jamais encontraria, dentro das suas restrições as oportunidades para uma escolha profissional livre diante da reprodução dos hábitos e educações que lhes foram oferecidos. A divisão do trabalho proporcionou a alienação do trabalhador diante da fragmentação do processo do trabalho, que distancia o empregado da percepção de todo o processo do trabalho, restringindo-o a uma determinada função, rígida, incapaz de olhar para além dela mesma, fortalecendo, nesse momento histórico, a alienação do proletariado em função da não participação de todo o processo do trabalho, tendo como conseqüência a imposição da mais valia, resultado da lógica de mercado capitalista. As escolhas profissionais, restritas ao pensamento de Adam Smith, podem ser pensadas como sendo o resultado de um sistema social, em que escolher é se encaixar da melhor forma possível no mercado de trabalho.


TRABALHO NA ATUALIDADE

O sistema capitalista atual colocou em cheque as características do liberalismo econômico de Adam Smith que sobreviveram ao fim do Estado Liberal e mantiveram-se durante o modelo fordista do capitalismo Keynesiano, sendo elas:
·         A produção em massa: em grande quantidade e longa escala;
·         A divisão técnica do trabalho: esta que vem desde o século XVIII, com o surgimento do capitalismo, em que cada trabalhador realizava uma função específica e repetitiva (mecânica) no processo produtivo.
Na atualidade, em decorrência do intenso desenvolvimento tecnológico, o capitalismo vive uma transformação que reflete na produção e consequentemente no mercado de trabalho. Chamada de Produção no tempo certo ou Just-in-time, essa transformação caracteriza-se, entre outras por:
-          Produção seletiva e controlada: produção para o que o mercado quer em quantidade e qualidade;
-          Automação da produção: mudança na força de trabalho: saindo a divisão técnica (repetitiva); entrando a automatização (a substituição da mão-de-obra por máquinas);
Obs. Vale lembrar que essa mudança da-se-á principalmente sacrificando a mão-de-obra técnica, dita hoje, menos qualificada. Isto por que as funções técnicas na atualidade podem ser feitas pelas máquinas, passando haver a desvalorização dos cursos técnico-profissionalisantes.
-          Qualificação da mão-de-obra: necessidade cada vez maior de conhecimentos, cursos universitários e o máximo de informações que o mercado atual exige.
O Just-in-time criou um novo mercado de trabalho, e um trabalhador que necessita cada vez mais de qualificação, cujo ponto de partida são os cursos universitários, mas não somente eles, a continuidade de aperfeiçoa-los é cada vez maior.
Em decorrência da automação que reproduz a atividade técnica, levando à perda de importância dos cursos técnico-profissionalizantes, o mercado fica cada vez mais seletivo, passando a existir abundância de mão-de-obra e a empregabilidade dos mais qualificados para garantir um melhor desempenho. A automação também cria o desaparecimento de algumas atividades técnicas, mudando os setores de atividades econômicas e criando um novo setor e novos empregos.
O mercado produtivo e de trabalho, que caracterizava-se pelos setores: primário (atividades agrárias), secundário (indústria: produção e montagem) e terciário (bens e serviços),  cria hoje uma nova realidade: o primário mecaniza-se, o secundário perde sua importância e o terciário passa a ser o maior gerador de riqueza e emprego.
O setor terciário passa a ter essa maior importância nessa nova fase do capitalismo (Just-in-time) porque alguns serviços (dentro desse novo contexto tecnológico: automação e necessidade de qualificação), passam a ser altamente rentáveis e necessários, como: informática, setor financeiro, turístico... entre outros. Esses serviços criaram a necessidade de um quarto setor: quaternário que produz educação, conhecimento, pesquisa, ciência e tecnologia, o qual é o grande responsável pela manutenção do Just-in-time, já que reproduz a geração da qualificação da mão-de-obra e tecnologia.


A PRÁTICA DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

A forma como a sociedade do trabalho, capitalista, organiza-se na atualidade traz uma necessidade de qualificação cada vez maior. É nesse contexto que surge a proposta de investigar as escolhas profissionais dos estudantes de uma escola pública de Criciúma, visando entender quais as razões das suas escolhas diante do último ano do ensino médio, mantendo nosso foco de estudos na dicotomia existente entre o que se deseja e o que é possível escolher; analisando o nível de conhecimento dos estudantes frente ao Just-in-time e as mudanças que o mesmo realiza no mercado de trabalho. A intenção é perceber como cada jovem vê o seu futuro, quais as condições para realizar um sonho profissional ou não realizá-lo, percebendo sua incapacidade de vencer os obstáculos existentes para realização desses sonhos.
As atividades foram realizadas com 17 alunos, estudantes do terceiro ano do Ensino Médio, do período noturno, da Escola Estadual Marcos Rovaris. Sendo que dos 17 participantes, 15 trabalham durante o dia. As atividades realizadas tiveram como finalidade relembrar e fazer pensar nos sonhos e ideais profissionais de cada participante, discutindo a realidade social em que se encontram inseridos, buscando alternativas existentes em que a escolha profissional é possível de ser feita.
Os participantes responderam algumas perguntas: 1. Qual o sonho profissional que você tinha quando criança? 2. Qual o ideal profissional hoje? 3. Qual o caminho que você se vê percorrendo depois de formado? A finalidade da atividade foi perceber se existia algum distanciamento entre o sonho profissional da infância em relação ao ideal profissional da adolescência e o caminho necessário à ser percorrido para alcançar os objetivos propostos, ou ainda se percorreriam outros caminhos, abandonando os sonhos e os ideais de outrora.
Dos 17 entrevistados, 16 demonstraram abandono dos sonhos infantis, diante de um ideal profissional melhor elaborado na adolescência, levando em consideração a realidade social vigente. Desses, 9 mostraram interesse em buscar como alternativa para realização profissional cursos profissionalizantes, 8 optaram em fazer cursos universitários, apenas um entrevistado foi inteiramente coerente, desde seu sonho infantil, o ideal profissional e o caminho para atingir esse ideal. Vale destacar que sua escolha foi artística. Depois de discutir a realidade social em que os jovens estão inseridos e as oportunidades que são oferecidas, foi proposta uma segunda pergunta: Entre o ideal e o real existe um caminho possível para ser trilhado? Qual? Os 17 alunos acreditam que existe um caminho para alcançarem a realização profissional. Dos 17 alunos, 16 sabem da necessidade de terem um curso universitário e pretendem cursá-lo, mas em conseqüência de suas situações sócio-econômicas, antes querem trabalhar e posteriormente tentar cursos dentro das áreas pretendidas a fim de criarem condições financeiras para custear a faculdade ou irem para outra cidade cursar uma faculdade pública. Desses estudantes, dois deles não acham possível suas realizações profissionais, demonstrando um descrédito grande por eles mesmos e pelo sistema, que por ser excludente gera uma incapacidade de enquadrá-los, apesar de acreditarem na existência de um caminho para sua realização profissional. Apenas 1 sente-se preparado, inclusive sócio-economicamente, para entrar logo em uma universidade e fazer o curso pretendido. O que fica evidente é que esse caminho possível aproxima-se não do sonho ou do ideal profissional, mas das oportunidades oferecidas pelo mercado.


CONCLUSÃO

A partir desse estudo chegou-se a conclusão que a grande maioria dos alunos pesquisados têm uma noção da necessidade de obter uma qualificação na atualidade, mesmo sendo-lhe privado a maioria das informações das transformações decorrentes do just-in-time. Existe uma noção proveniente, muito mais de uma cultura popular resultante das experiências excludentes do mercado de trabalho, do que de informações específicas que ocasionam essa exclusão, que geram um objetivo comum, que é: cursar uma universidade. Percebe-se, porém, que ainda existe uma influência muito grande do modelo fordista da divisão técnica do trabalho e da necessidade de cursos técnico-profissionalizantes, reforçando nossa teoria da falta de informação necessária para que esses alunos sejam orientados a buscar a qualificação que o sistema capitalista (o qual vivemos) impõem ao mercado de trabalho atual.
Diante da realidade imposta pela sociedade capitalista, a escolha profissional só pode ser feita diante das possibilidades, restritas por classe, que impõem um modelo de funcionamento que determina nossas escolhas diante do que pode ser oferecido pelo mercado. Dessa forma, os sonhos, os ideais confrontam-se com a realidade objetiva e perdem-se na proporção em que a ascensão de uma classe á outra é negada, e/ou quando o mercado exige dos indivíduos algo diferente do que os mesmos desejam oferecer. 
Fica evidente a luta pela sobrevivência, mais do que a luta pela realização de um sonho, evidenciando também a grande agonia da construção de subjetividades que negam-se para sobreviver, que se perdem numa construção partindo da concretude do mundo capitalista, que impossibilita a vida pretendida. Assim, tornar-se trabalhador, dependendo do contexto social, sabendo que o trabalho exerce influencias significativas na construção da personalidade, pode, em nossa sociedade, proporcionar a negação do direito de sonhar. Da mesma forma, lutar por melhores condições de vida, alimentar um ideal, um sonho profissional, é manter-se firme como sujeitos em construção num mundo de contradições. Portanto, cabe a psicologia, na orientação profissional, buscar meios de refletir e proporcionar um caminho para realização de uma escolha profissional, pautada na superação das dificuldades existentes na sociedade capitalista.
       

REFERÊNCIAS


SILVA, Cleuza Albuquerque. Revolução Técnico-científica. Belém: Ideal, 2001.
SMITH, Adam. Inquérito Sobre a Natureza e as Causas das Riquezas das Nações. 2 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1999. 1v.
BOCK, Silvio Duarte. Orientação Profissional: a abordagem sócio histórica. São Paulo: Cortez Editora, 2002.

AGRADECIMENTOS

Com muito carinho a Cléo (Cleuza: citada nas referencias), pelo apoio, auxílio, companheirismo e Amor.
A Professora Regina pela Orientação e revisão, e abertura para uma prática diferenciada em Orientação Profissional


2 Acadêmico do curso de Psicologia da UNESC, ismael_psico@hotmail.com
3 Professora da Disciplina de Orientação Profissional do Curso de Psicologia da UNESC.

4 BOCK, 2002. p 80.

[1] Termo utilizado por Smith no livro Teoria dos Sentimentos Morais, referindo-se ao motivo que torna as relações sociais possíveis.
5 SMITH, 1999, p 97.

TRADIÇÃO JUDAICO-CRISTÃ ESCRITA: UM ENSAIO CRÍTICO SOBRE A CANONIZAÇÃO VETERO E NEOTESTAMENTÁRIA

Artigo publicado na Revista Tempos Acadêmicos da UNESC - Volume 1 - Número 4 de 2006.



Ismael Ferreira *

RESUMO:
O artigo apresenta uma discussão bastante atual na teologia, filosofia, filologia, antropologia e outras áreas, sobre a canonização do Antigo e do Novo Testamento, buscando refletir sobre as razões pelas quais se fez a canonização.

PALAVRAS CHAVE
Canonização. Judaísmo. Cristianismo. Bíblia.

ABSTRACT
Jewish-Christian Writtew Tradition: A critical essay canonization on the Old and New Testaments, aimino at reflecting upon the reasons that led to canonization. The zotide pesents an up-to-dste discussion of Theology, Philosophy, Philology, Anthropology and other sciences, on the subject of canonization of the Old and New Testaments.

KEY-WORDS
Canonization. Judaism. Christianism. Bible.

INTRODUÇÃO

A tradição judaico-cristã escrita se constitui de uma infinidade de livros datados desde um período anterior a 1500 a.C., acredita-se que alguns acontecimentos relatados chegam a uma data próxima a 10000 a.C., conforme a tradição escrita constitutiva das religiões judaica e cristã. As tradições se constroem primeiramente numa transmissão oral, de geração à geração, posteriormente numa tradição escrita. Os livros do A.T. foram preservados pelos escribas, que tinham como missão transcrever os textos sagrados para que não se perdessem diante da instabilidade nômade dos judeus. Moisés, segundo as tradições religiosas mais antigas, foi o autor dos 5 (cinco) primeiros livros, chamado pelos judeus de Torá e pelos cristãos de Pentateuco. Não podemos afirmar que Moisés é o autor de todos os textos desses 5 livros, mas a tradição judaico-cristã da a Moisés a autoria dos mesmos. Durante esse período inicial da escrita até cerca de 367 d.C. (data da canonização do Novo Testamento), a tradição religiosa judaico-cristã, no processo histórico da construção de sua cultura elaborou uma quantidade significativa de livros, documentos e textos, que se tornaram a fonte inspiradora da sua religiosidade. O conjunto dos textos que servem de embasamento para duas das principais religiões do mundo (cristianismo, judaísmo), e que influenciaram significativamente ocidente, estão reunidos e organizados num livro que chamamos Bíblia.

BÍBLIA, O TERMO E SUA FORMAÇÃO

O termo vem do Grego bibloV que significa livro, enquanto seu plural biblia significa um conjunto ou coletânea de livros. A Bíblia foi dividida em Antigo e Novo Testamento, sendo que o A.T.1 é composto por 39 livros na versão protestante, tendo 7 livros a mais na versão católica. O N.T.2, se equivale nas duas versões com 27 livros. A delimitação da quantidade de livros que fazem parte da Bíblia vem de uma seleção para escolha de quais livros fariam parta desse conjunto de livros oficializados pelo judaísmo e cristianismo.
A escolha dos livros oficiais foi chamada de canonizar. A palavra, cuja raiz cânon significa padrão, vem do Grego kanon que significa cana ou junco, usado como vara para medir. Dessa forma, cânon significa padrão, ou o que deve ser adotado como certo. Assim, a Bíblia teria os livros adotados como certos na tradição religiosa judaico-cristã, embora o judaísmo use apenas o A.T., enquanto o cristianismo usa o A.T. e o N.T.
Em um período anterior a canonização existia uma quantidade significativa de cópias dos vários textos que hoje fazem parte do conjunto oficial, porém, circulava livremente uma outra quantidade de livros que hoje são considerados apócrifos.

CANONIZAÇÃO DO ANTIGO TESTAMENTO, RAZÕES E JUSTIFICATIVAS

A história dos judeus foi marcada por uma forte influência de outras culturas, desde a saída do Egito até o domínio dos judeus pelos romanos. Os lideres políticos e religiosos lutaram para que o povo não se deixa-se seduzir por outras culturas. A história dos judeus narrada pela Bíblia ou por Flávio Josefo1, mostra diversas situações em que os hebreus são influenciados por outras culturas. Ao descer do Monte Sinai, após ter recebido o decálogo, Moisés se depara com a idolatria do povo cultuando um bezerro de ouro. Durante o Excedo2 os hebreus se curvaram e se deixaram influenciar por outras culturas como: egípcia, midianita, persa , babilônica, grega, etc. Demonstrando uma forte tendência ao politeísmo, que na medida do possível era combatida por alguns lideres religiosos fiéis ao monoteísmo, porém, o monoteísmo não era hegemônico. No período monárquico ocorreu o maior abandono da fé judaica, pois a influência vinha dos reis que aderiam as práticas litúrgicas de outros povos. O cativo babilônico só não fez com que os judeus perdessem sua identidade cultural por causa do surgimento das Sinagogas1. A helenização sofrida por todo o mundo antigo sobre o controle de Alexandre Magno também influenciou a cultura e religião judaica, como por exemplo, a primeira tradução do A. T. para a língua Grega feita por aproximadamente 70 judeus, e foi chamada Septuaginta.  Sem contar o fato de o povo judeu ter sido espalhado por todo o mundo. E por fim as influências do império Romano.
Todos esses acontecimentos fizeram com que o povo hebreu produzisse literatura religiosa influenciada por outras culturas e religiões. Assim, para que a cultura e religião judaica não se perdesse se fez necessário dizer quais livros mantinham a essência religiosa judaica, por isso, houve a necessidade da canonização.
A escolha dos livros canônicos do A. T. ocorreu em 70 d. C., época em que Jerusalém e o templo foram destruídos e o povo disperso. A canonização iria fazer com que os judeus continuassem a ser um povo unido “um povo de um livro só”. Bloquearia os diversos pensamentos e literaturas contrárias ao pensamento hegemônico que circulava e influenciava o povo. Segundo McDowell1 (1996) Yohanan bem Zakkai, um dos maiores rabinos dessa época foi o organizador do Concílio de Jâmnia, que proporcionou uma série de debates para que a canonização do A. T. fosse concluída. Os livros considerados apócrifos pelos judeus também foram considerados pelos protestantes e católicos, porém, os católicos reconheceram alguns desses livros como canônicos em 1546 d.C., no Concílio de Trento, num movimento intitulado Contra Reforma.        

CANONIZAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO, RAZÕES E JUSTIFICATIVAS

O textos do N. T. existentes foram escritos em Grego. Não são os originais, são traduções e cópias dos originais, que provavelmente foram escritos em Aramaico. Alexandre Magno desenvolveu uma modalidade da língua grega que foi chamado koine que significa comum, uma espécie de Grego utilizado para ensinar a massa leiga. Essa forma de Grego foi utilizada para escrever o N. T., pois, a divulgação se tornou mais fácil, pois os povos conquistados por Alexandre eram forçados a aprender a língua grega.
O N. T. teve sua canonização em 367 d. C. Antes desse período existiam vários livros e textos cristãos circulando sem significativos problemas para o cristianismo, porém, em um determinado período da história cristã ocorreu a necessidade de escolher quais dos livros se tornariam referencial do pensamento cristão. Dentre as justificativas para a canonização, McDowell (1996) destaca:

“1. O surgimento de um herege chamado Marcião (cerca de 140 d. C.) que desenvolveu seu próprio cânon e começou a divulgá-lo. A igreja precisava contrabalançar essa influência decidindo qual era o verdadeiro cânon do N. T.; 2. Igrejas orientais começaram a empregar nos cultos livros que eram claramente adulterados; 3. O edito do Imperador Romano Diocleciano (367 d. C.) determinando a destruição dos livros sagrados dos cristãos.” (MCDOWELL, 1996)1.


Atanásio de Alexandria foi quem apresentou pela primeira vez o conjunto de livros que hoje compõe o N. T., porém, foram os pensadores católicos Santo Agostinho e São Jerônimo que definiram a canonização. A oficialização do cânon do N. T. ocorreu em 393 d.C. no Concílio de Hipona. Hoje tanto os católicos como os protestantes consideram os 27 livros como canônicos. Os encontrados posteriormente por arqueólogos como: Evangelho de São Tomé, Evangelho de Judas e outros nunca foram aceitos por protestantes e católicos.

CRÍTICA MODERNA

As discussões teológicas pairam sobre a teoria da inerrância bíblica, pois sendo a Bíblia divinamente inspirada, exclui a possibilidade de conter erros, seja na formação, organização ou conteúdo. Thiessen (1997) comenta sobre a teoria da inspiração divina “Creiamos, portanto, confiantemente, que todas as outras dificuldades podem ser resolvidas também, e aceitemos a Bíblia como a Palavra de Deus, verbalmente inspirada” (THISSEN, 1997, p 72)1. Depois de discutir o assunto no segundo capítulo do seu livro Palestras em Teologia Sistemática, Thiessen compreende que a inspiração divina só pode ser possível mediante a fé. Hodge (2001) afirma “Quando nos referimos a Bíblia como de autoridade divina, nos referimos a ela como um volume e reconhecemos todos os escritos que ela contém como dados pela inspiração do Espírito” (HODGE, 2001, p 114)2. Segundo Hodge o fato de a Bíblia ser inspirada por Deus se torna infalível “A infalibilidade e a autoridade divina das Escrituras se deve ao fato de serem a palavra de Deus (...) (HODGE, 2001, p 115)1. McDowell (1997), depois de explanar exaustivamente as questões relacionadas a Bíblia, comentou: “O que foi dito acima não prova que a Bíblia é inspirada por Deus, mas para mim prova que é única” (MCDOWELL, 1996, p 30)2. Seus argumentos favorecem a Bíblia como documento, sua autenticidade e singularidade, porém, não discute questões relacionadas a fé. O problema não é ver autenticidade nos textos bíblicos, e sim em não ver autenticidade nos textos que expressam parte da mesma cultura, considerando-os apócrifos. Apócrifo deve significar: o que não foi adotado como prática de determinada fé. Não devemos atribuir aos livros considerados apócrifos a idéia de serem falsos, pois, cientificamente não encontraremos nenhuma diferença entre os ditos apócrifos e os canônicos.
Quando a discussão fica no campo da inspiração divina, torna-se inadequado qualquer comentário, pois estaremos discutindo a fé, e a fé se coloca a favor da inspiração, sobre a lógica. Acabando os argumentos a fé é posta como resposta favorável à inspiração divina. Nosso estudo não busca questionar os elementos da fé que são utilizados para fortalecer a idéia de que alguns livros são inspirados, infalíveis e fidedignos, enquanto outros são considerados apócrifos, falsos, não atribuindo aos mesmos valor algum. Compreendemos que a canonização respeitou questões políticas, sociais e culturais, porém, se trata da manutenção da hegemonia cultural, política e social. Assim, tentamos provar o valor dos textos não canonizados, que provavelmente expressam o ponto de vista cultural de uma minoria não elitizada. Alguns textos bíblicos são utilizados para reforçar a teoria da inspiração, inerrância e infalibilidade dos livros canonizados: “Toda a escritura é divinamente inspirada por Deus (...) (Paulo, II Timótio 3:19)*; (...) sabendo, primeiramente, isto, que nenhum profecia da Escritura provém de particular elucidação; pois nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”(Pedro, II Pedro 1: 20,21)*; (...) ninguém pode abolir a Escritura (...) (Jesus, Evangelho de João 10:35)*. Os textos são utilizados para demonstrar que os livros canonizados são inspirados por Deus. Porém, a questão levantada é como os textos bíblicos podem reforçar a idéia da inerrância ou inspiração se os mesmos foram escritos antes da canonização, assim, para quais livros essas afirmações são direcionadas, visto que não existia uma oficialização dos livros? Dessa forma, não sabemos sobre quais livros os autores estavam se referindo. Assim, nem mesmo as citações da Bíblia servem como defesa da inerrância ou inspiração divina dos livros canonizados, pois a canonização foi posterior a defesa, sendo impossível de saber sobre quais livros essas afirmações são direcionadas, a menos que novas descobertas arqueológicas esclareçam estas questões.
Outra questão que merece destaque é a citação que Judas faz sobre o livro de Henoc:
“É também contra esses que profetizou Henoc, o sétimo depois de Adão: Eis que vem o Senhor com seus santos exércitos exercer o julgamento universal e convencer todos os ímpios de todas as suas impiedades criminosas e de todas as palavras insolentes que os pecadores ímpios proferiram contra ele” (Judas v 14, 15)*.

O próprio escritor de um dos livros canonizados utiliza parte de um livro apócrifo com a finalidade de exortar. Se Judas foi inspirado por Deus para escrever sua epístola, sua citação do livro de Henoc não pode ser considerado outra coisas senão a manifestação de que o livro de Henoc também é inspirado. Os teólogos posteriores não poderiam desconsiderar tal citação e excluir este livro, pois, dessa forma, o poder de julgar estava nas mãos de quem escolheu os livros e não de quem escreveu.
Temos também a afirmação de Paulo: “Ah, sim! Eu batizei ainda a família de Estéfanas. Quanto ao resto, não batizei nenhum outro, que eu saiba” (Paulo, I Coríntios, 1:16)*. Como alguém inspirado por Deus não se lembraria de uma situação relevante. Expressando sua subjetividade sem a qualidade divina da onisciência1, resultado de uma inspiração sobrenatural que o qualifica para escrever segundo a vontade de Deus.
Por fim, a reflexão que nos propomos a fazer é sobre a dogmatização doutrinária que exclui e condena culturas e religiosidades não por questões como autenticidade, verdade, correto, mas por questões ideológicas. Pois a única razão para construir determinada religiosidade, sendo sustentada por certos livros é o momento histórico, as crenças e, em última análise, os sujeitos constituídos e produzidos por um meio social que produz neles um padrão. Assim, podemos dizer que a canonização é o resultado subjetivo de um momento histórico.
CONCLUSÃO

Podemos concluir que a rigidez da escolha nos fez refletir sobre as possíveis perdas culturais da exclusão dos livros não canônicos, ou considerados apócrifos, pois, a canonização conservou a religiosidade que, não se perdeu, mas se enrijeceu e se dogmatizou, de tal forma que tudo que não era canônico foi destruído, restando poucos livros e textos, que de alguma forma, fazem parte da mesma cultura e tradição religiosa. 
A diversidade na tradição religiosa, tanto judaica, quanto cristã, sempre existiu, porém, a imposição ideológica das classes dominantes, mesmo se tratando de religiosidade, universaliza conceitos, pondo-os acima de quaisquer outros, obrigando a classe dominada a segui-los. Em última instância, encontramos uma relação de dominação, pois a justificativa de perda de cultura caso não canonizássemos os livros sagrados, mostra uma dominação ideológica, e a manutenção da hegemonia cultural.

REFERENCIAS


Bíblia sagrada. 7 ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.
CESARÉIA, Eusébio. História Eclesiástica: os primeiros quatro séculos da igreja cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia teologia e Filosofia. 5 ed. São Paulo: Hagnos, 2001.
FOX, Robin Lane. Bíblia: verdade e ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: HAGNOS, 2001.
JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
MCDOWELL, Josh. Evidências que Exigem um Veredicto: evidências históricas da fé cristã. 2 ed. São Paulo: Editora Candeia, 1996. v I, II.
PALMER, Michael D. Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. 4 ed. São Paulo: EBR, 1997.
THOMPSON, Frank Charles. Bíblia de Referência Thompson. 10 ed. São Paulo: VIDA, 1999.

AGRADECIMENTOS

Ao professor e amigo Sérgio Quevedo, pelos longos e importantes diálogos sobre teologia.
A professora Joana Dark, pela orientação.


1 A.T.: Abreviação de Antigo Testamento
2 A.T.: Abreviação de Novo Testamento
2 Êxodo vem do Grego ecVodwV que significa “saída”  ou “partida”, livro que narra a saída do povo hebreu do Egito rumo a terra prometida.
1 Sinagoga: Local fora de Jerusalém onde era possível manter as práticas religiosas do povo judeu.
1 MCDOWELL, Josh. Evidências que Exigem um Veredicto: evidências históricas da fé cristã, 1996.
1 MCDOWELL, Josh. Evidências que Exigem um Veredicto: evidências históricas da fé cristã, 1996
1 THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática, 1997.
2 HODGE, Charles. Teologia Sistemática, 2001.

1 HODGE, Charles. Teologia Sistemática, 2001.
2 MCDOWELL, Josh. Evidências que Exigem um Veredicto: evidências históricas da fé cristã, 1996.
* Bíblia Sagrada. 7 ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.
* Bíblia sagrada. 7 ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.
* Bíblia sagrada. 7 ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.
1 Atributo não moral de Deus, expressando sua capacidade de ser conhecedor de todas as coisas.

A INSUFICIÊNCIA DO MÉTODO CARTESIANO NA FORMAÇÃO DE UM TEÍSMO RACIONALISTA

Artigo publicado na Revista Vox Scripturae Número XV - Número 1 - União Cristã - Abril de 2007.



ISAMEL FERREIRA*

RESUMO
O texto traz uma discussão bastante presente na teologia contemporânea relacionada à inserção do método científico cartesiano na formulação dos conceitos teológicos. Refletir as influências, os avanços significativos e os limites da relação entre ciência e fé é nossa modesta pretensão neste ensaio.
   
PALAVRAS-CHAVES
Racionalismo. Descartes. Razão. Conhecimento.

KEYWORDS
Rationalism. Descartes. Reason. Knowledge.




INTRODUÇÃO

O filósofo francês René Descartes desenvolveu um método para ser aplicado na obtenção do conhecimento. Entendendo que o conhecimento obtido pela experiência não era seguro, pois segundo Descartes, os sentidos podem nos enganar. Assim, elaborou um método que usa a razão como objeto seguro na obtenção do conhecimento, e utilizou o método para formular uma idéia sobre Deus, restringindo Deus a uma compreensão racionalista. Nos propomos a avaliar o método cartesiano quando aplicado à obtenção do conhecimento sobre Deus, entendendo que tal método é insuficiente na sua tentativa de conhecer a deidade.


MÉTODO CARTESIANO

Nas Meditações de Descartes encontramos a fundamentação teórica para o racionalismo idealista. Na tentativa de buscar alicerce seguro para poder, de forma certeira apoiar sua filosofia, Descartes inicia as Meditações relatando seus equívocos passados quando sem maiores esclarecimentos aceitou como verdade opiniões equivocadas. Não querendo cometer novamente os mesmos erros, entendeu ser necessário se desvencilhar de todas as certezas que até então concebia como verdadeiras, (...) irei me dedicar com a máxima seriedade e plena liberdade a demolir em geral todas as minhas antigas opiniões”1. Desta forma, usou a seguinte reflexão para identificar o erro (...) o menor índice de dúvida que eu nelas encontrar será suficiente para impelir-me a repelir todas”1. Descartes buscava nas suas antigas concepções o caminho para poder construir fundamentos seguros nos quais poderia desenvolver uma filosofia que tivesse como alicerce a verdade, seguindo seu método, que propunha  ao menor sinal de dúvida repelir tal possibilidade.
Os sentidos tinham sido para Descartes a forma mais certa de se conhecer, porém poderiam os sentidos nos enganar? Sim, diz Descartes. Se existe o mínimo de desconfiança na percepção da verdade por meio dos sentidos, se existe uma fagulha de dúvida, seguindo sua reflexão, deveria deixar de lado e buscar algo que fosse incapaz de ser um equívoco. Se os sentidos não são confiáveis, como acaba concluindo, supondo que as sensações que nos chegam por meio dos sentidos são deturpadas por alguma força, ou mesmo a inexistência do mundo sensível, o que pode ser confiável, de que forma poderemos obter um conhecimento seguro? Contudo, Descartes refuta para longe de si todas suas antigas opiniões, por encontrar nelas mínimas sombras de dúvidas, por menor que fossem. Seus questionamentos em relação a tudo o que tinha como verdade fora de tal forma pensado que se incomodara profundamente com tais reflexões. Percebera também a impossibilidade de voltar atrás, uma vez que havia derrubado todas as suas verdades por considerá-las duvidosas em maior ou menor proporção.
Agora, imerso em um ceticismo angustiante, em que nenhuma certeza  existi,  pois todas as verdades desmoronaram, chegou a conclusão que nada de certo existe no mundo, pois de tudo o que existe, de tudo se pode duvidar. É dessa forma que Descartes inicia a segunda meditação, porém encontra esperança de obter êxodo em sua proposta.

“Arquimedes, a fim de tirar o globo terrestre de seu lugar e transportá-lo para outro, não pedia nada mais que não fosse um ponto fixo e certo. Portanto terei o direito de alimentar grandes esperanças, se for bastante feliz para encontrar apenas uma coisa que seja segura e incontestável” 1.

Algo seguro e incontestável, esse é seu objetivo, alcançar um ponto seguro para apoiar sua filosofia. Mas, como achar um ponto seguro quando,  por meio de suas reflexões, nada fez senão refutar todas as certezas? Se a única certeza que podemos ter é a dúvida, a dúvida se torna a única certeza na qual podemos confiar. Descartes chega a uma conclusão, pode-se duvidar da existência do corpo, da exatidão dos sentidos, da existência de Deus, do mundo, dos outros seres e objetos, porém não se pode duvidar da ação de duvidar, ou seja, não se pode duvidar do fato de estarmos pensando (...) o pensamento é um atributo que me pertence; somente ele não pode ser separado de mim” 2. A própria existência é confirmada por meio do pensamento. O que somos? Somos uma coisa que pensa. O pensamento é a única pedra segura na qual se pode alicerçar  um edifício. Essa reflexão leva a sua mais famosa frase – cogito ergo sum – (penso logo existo). Somente por meio da razão se pode chegar a algo confiável.
Foi partindo dessa premissa que Descartes construiu suas reflexões, dando-se conta de ser algo além do próprio pensamento, pois, por meio do pensamento posso me perceber enquanto ser, e definir-me como tal. A imaginação, por exemplo, considerou algo tão forte, chegando ao ponto de não poder negar sua presença (...) ainda que possa suceder que as coisas que imagino não sejam verdadeiras, essa capacidade de imaginar não deixa de existir realmente em mim e faz parte do meu pensamento” 1. Da mesma forma que Descartes percebe as coisas que imagina como podendo ser equivocadas, vê que a ação de estar imaginando não pode ser negada. A possibilidade de os sentidos serem enganosos são reais, porém não podemos negar o fato de estarmos sentindo. A existência das coisas externas, como a fidelidade dos sentidos, são provadas quando sentimos, independente de querermos ou não sentir. As sensações que chegam por meio dos sentidos provam a existência do mundo sensível, pois não pertence a nós a escolha do que sentir, por exemplo: a percepção do calor ou do frio.


A PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS POR MEIO DA RAZÃO

Descartes propõe que é por meio do pensamento que podemos conhecer, afirmando que o pensamento é mais seguro e confiável do que as coisas, pois mesmo que esteja enganado em relação à existência delas, não pode estar enganado em relação ao fato de estar pensando. O conhecimento é possível por meio do pensamento, sendo o ponto de partida para o conhecimento. Assim,  Descartes defende a existência de idéias inatas em nós, resultado da capacidade de conhecer que existe em nós. O exercício do pensamento nos leva à idéia de Deus, pois para Descartes, Deus existe por existir em nós a idéia de perfeição, quando não somos perfeitos; a idéia de infinito, quando somos finitos, etc. Não podemos  ser os autores dessas idéias, uma vez que não existe em nós essas qualidades. Faz-se necessário que alguém tenha colocado essas idéias em nós. Ainda, se não somos os criadores de nós mesmos, logo somos criados. Ser criado requer a existência de um criador, da mesma forma que ser imperfeito e finito requer a existência de algo perfeito e infinito (Deus é para Descartes o conjunto dessas qualidades advindas das idéias inatas).
Descartes, defendendo o teísmo a existência de um  a priori. O pensamento nos remete a idéia de Deus, confirmando sua existência pelo princípio da razão (...) seria impossível que minha natureza fosse tal como é, isto é, que eu tivesse em mim a idéia de um Deus, se Deus não existisse de fato” 1. Descartes diz ser impossível ter a idéia de Deus em sua mente, se Deus não existisse, pois a idéia de um Deus só pode existir se a mente assim conceber, uma vez que essa idéia foge da experiência.

INSUFICIÊNCIA DO RACIONALISMO CARTESIANO NA FORMULAÇÃO DA IDÉIA DE DEUS 


O pensamento cartesiano, na elaboração de seu método, propõe uma forma de obtenção segura do conhecimento, a razão. Porém, se a razão é o método seguro, ignoramos outras faculdades as quais fazem parte da estrutura humana, e que Descartes as vê como plausíveis de falhas. Para Descartes Deus é revelado à razão, sendo que a razão obedece princípios lógicos, os quais deram origem ao modelo de ciência que hoje ainda predomina como método para obtermos um conhecimento seguro. A lógica racionalista cartesiana elabora conceitos exatos até onde o entendimento humano é capaz de alcançar, pois nossa mente não é infinita, nem eterna, assim nada pode nos mostrar sobre Deus além do que nos for revelado. Se o conhecimento sobre Deus existe como resultado da capacidade de pensar que existe em nós, a razão se sobrepõe, se tornando auto-suficiente no conhecimento sobre Deus. Dessa forma, Deus se torna objeto de conhecimento da razão humana. Citamos Descartes:  

“Concebemos os corpos por intermédio da capacidade de entender que há em nós e não por intermédio da imaginação nem dos sentidos, e que não os conhecemos pelo fato  de os ver ou de tocá-los, mas apenas por concebê-los por meio do pensamento” 1.



A importância dada por Descartes ao pensamento torna-o auto-suficiente. Por meio dele o conhecimento é possível. Sendo a razão o caminho, por meio de onde se obtêm o conhecimento. A revelação divina deve se adequar aos mecanismos racionais, não podendo ser expressa ao homem de outra forma. Sendo que para Descartes as idéias inatas provam a existência de Deus na medida em que elas revelam Deus, por meio da razão. A insuficiência da teoria cartesiana no que tange seu teísmo, fica clara diante da própria limitação da razão na compreensão das idéias inatas. A mente não é capaz de compreender e elaborar idéias que não sejam vagas, quando as idéias são sobre o infinito, o perfeito, o eterno. Logo, nossa mente incapaz e finita, não pode ser o centro, por meio do qual, o conhecimento é possível. Podemos, tão somente, obter alguns conhecimentos limitados. Somente uma substância infinita, eterna, perfeita, pode ser capaz de desenvolver com clareza idéias afins. O conhecimento sobre Deus não pode estar restrito à razão, e sim no próprio Deus, sendo o conhecimento sobre a deidade um ato da vontade divina, livre, revelada ao homem.
Por fim, nossa oposição ao cartesianismo se encontra no modelo de ciência que se desenvolveu a partir de Descartes. O homem capaz de pensar Deus e o mundo, elimina Deus como fonte do conhecimento. O conhecimento sobre Deus não pode ser uma ação do homem, da vontade humana, em que negar ou afirmar sua existência é possível com a utilização do pensamento. Ao contrário, o conhecimento sobre Deus deve ser uma ação da vontade divina ao homem, independente da vontade humana, independente das faculdades humanas. Ora, como poderíamos afirmar que um excepcional encontraria Deus se adotássemos o cartesianismo como método utilizado para se obter um conhecimento seguro sobre Deus? Deus se revela ao homem, se deixa conhecer pelos homens, segundo a sua vontade, conforme seu método. A revelação divina não pode ser restrita a faculdade da razão, deve sim, ser obtida no ato da vontade humana de querer conhecer, combinada com a permissão divina de se deixar conhecer.
     A sutileza da reflexão cartesiana deve ser captada e aproveitada, mas devemos saber separar o joio do trigo. A razão nos leva a conhecermos Deus, O apostolo Pedro afirmou (...) crescei na graça e no conhecimento”1 . Mas ela é uma das formas, e não é a principal forma, pois Deus tem uma comunicação direta com a alma, espírito, ou se preferirmos, o coração humano.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.      ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 1014 p.
2.      BUENO, Silveira. Mini Dicionário: inglês-português português-inglês. São Paulo: FTA, 2000. 
3.      DESCARTES, René. Descartes – Vida e Obra: In Coleção: os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999. 334 p.
4.      DUROZOI, Gérard. ROUSSEL, André. Dicionário de Filosofia. Campinas: Papirus, 1999. 511 p.
5.      CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2001. v. 2, 945 p.; v. 3, 935 p.
6.      THOMPSON, Frank Charles. Bíblia de Referência Thompson. São Paulo: Vida, 1999. 


* Teólogo (EETAD, CEPEI), Acadêmico de Psicologia 8a Fase (UNESC), Membro do Grupo de Estudo e Pesquisa em Filosofia ‘GEPFilosofia’
1 DESCARTES, René. Meditações, 1999. p 249.

1Descartes, 1999, p. 250.
1 DESCARTES, René. 1999. p. 257.
2 DESCARTES, René.  pp. 260-1
1 DESCARTES, René.1999.  p 263.
1 DESCARTES, René. 1999.  p 289.
1 DESCARTES, René. 1999. p 268.
1 II Pedro 3:18